O Carnaval que ninguém vê: a química por trás da folia
A festa é cultural, mas também química e nem sempre inofensiva
O Carnaval é reconhecido como a maior festa popular do Brasil, reunindo pessoas de diferentes grupos sociais em todas as regiões do país. Segundo estimativas do Ministério do Turismo, mais de 53 milhões de pessoas participaram do Carnaval de 2025 em todo o território nacional, número que corresponde a aproximadamente um quarto da população brasileira. Além dos foliões locais, um contingente expressivo de turistas estrangeiros também visita o país nesse período.
Com origens que remontam ao século XVII, o Carnaval brasileiro acumula quase 400 anos de história e se consolidou como um dos pilares da cultura nacional. Na atualidade, a festa expressa a diversidade cultural do Brasil, especialmente nos desfiles das escolas de samba, que apresentam narrativas históricas e comentários sociais por meio de fantasias elaboradas, carros alegóricos de grande porte, coreografias vibrantes e apresentações musicais marcantes.
Embora muitos vejam a festa apenas como manifestação cultural e artística, ela também envolve um intenso cenário químico. Mesmo fazendo parte do grupo que não participa diretamente da folia, não deixo, como químico, de refletir sobre o quanto a química impacta as pessoas nesse período.
Nos festejos, circula uma combinação de química recreativa, cosmética e ambiental, que passa despercebida para a maioria da população. Entre o conjunto de substâncias presentes estão solventes voláteis encontrados em inalantes ilícitos, como o chamado lança-perfume ou “loló”, que pode conter compostos como éter dietílico, clorofórmio, diclorometano e cloreto de etila, todos com efeitos narcóticos ou depressores sobre o sistema nervoso central.
Somam-se a isso os produtos cosméticos amplamente utilizados — maquiagens, tintas corporais, sprays de cabelo e espumas — que incluem pigmentos minerais, como óxidos de ferro e dióxido de titânio, polímeros fixadores, tensoativos, além de fragrâncias ricas em compostos orgânicos voláteis, alguns com potencial irritante em indivíduos sensíveis, como limoneno e linalol.
O brilho do glitter tradicional geralmente resulta do uso de microplásticos à base de PET (polietileno tereftalato), polímero também utilizado em embalagens, muitas vezes recoberto por finas camadas metálicas que aumentam o efeito refletivo.
Já os fogos de artifício produzem suas cores por meio da emissão de luz por sais metálicos, como os de estrôncio, bário, cobre e sódio, responsáveis, respectivamente, por tons de vermelho, verde, azul e amarelo, como já discutido em artigo recente nesta coluna.
Repelentes de insetos e protetores solares acrescentam outras substâncias, como o DEET (N,N-dietil-3-metilbenzamida), um composto usado para afastar mosquitos e outros insetos, ajudando a prevenir picadas e doenças transmitidas por vetores, além de filtros orgânicos de radiação ultravioleta. Bebidas alcoólicas introduzem o etanol nesse cenário, outro composto com efeito depressor sobre o sistema nervoso central. Assim, a folia também representa um contexto de exposição combinada a diversos agentes químicos, com possíveis implicações para a saúde e para o ambiente, especialmente em situações de grande aglomeração urbana.
Nesse cenário ampliado de consumo e exposição, um estudo recente publicado na revista Drug Testing and Analysis identificou a presença de fenibute — um depressor do sistema nervoso central associado a risco de dependência e efeitos adversos como sedação intensa e síndrome de abstinência — em amostras de esgoto coletadas durante o Carnaval brasileiro, demonstrando, por meio de epidemiologia baseada em águas residuárias, que substâncias psicoativas emergentes também fazem parte do contexto químico da festa.
No que se refere ao perfil de compostos orgânicos voláteis (COVs) associados ao consumo de inalantes, um estudo toxicológico realizado com dados forenses do Estado de São Paulo, entre janeiro e junho de 2021, revelou que, dos mais de 11.000 casos analisados, 382 (3,5%) apresentaram resultado positivo para COVs usados como inalantes, com destaque para tricloroetileno (63,5%) e clorofórmio (30,6%), além de diclorometano, tolueno e benzeno, sendo frequente a detecção de múltiplas substâncias em uma mesma amostra. Observou-se maior prevalência entre homens e indivíduos de 15 a 24 anos, e a combinação tricloroetileno + clorofórmio foi a mais recorrente entre os casos com mais de um composto detectado, o que confirma a relevância desses solventes voláteis no contexto de uso de inalantes no Brasil.
Como muitos desses compostos voláteis podem apresentar toxicidade significativa, a exemplo do clorofórmio, que é hepatotóxico e classificado como possivelmente carcinogênico, o Decreto nº 51.211, de 1961, proibiu a fabricação, o comércio e o uso do “lança-perfume” em todo o território nacional, como medida de proteção à saúde pública. Posteriormente, a Lei nº 5.062, de 1966, reforçou essa proibição. Trata-se de mais um exemplo de legislação voltada à proteção da população, embora, nesse contexto, o uso dessas substâncias ilícitas ainda persista.
Mais do que simplesmente proibir por meio de leis, é fundamental informar e conscientizar a população sobre os riscos associados ao uso dessas e de outras substâncias. A legislação sanitária existe justamente para proteger o cidadão, restringindo ou proibindo o uso de substâncias quando os riscos potenciais superam os possíveis benefícios.
A celebração da vida por meio de festividades faz parte das culturas de todos os povos e a diversidade dessas manifestações é motivo de alegria e um elemento que enriquece a humanidade. Celebrar com responsabilidade, porém, é essencial para evitar problemas imediatos e também consequências que podem surgir no longo prazo, já que a exposição repetida a certas substâncias, mesmo em pequenas quantidades, pode provocar danos que só se manifestam anos depois.
O Carnaval pode, sim, ser um momento de alegria, encontro e expressão cultural. Informação e consciência sobre o que se utiliza fazem toda a diferença. Com escolhas seguras, a química permanece como aliada da vida cotidiana e não como fonte de riscos desnecessários.
Para saber mais: GOMES, Bruna R. de S. et al. Surveillance of phenibut in wastewater during a Brazilian Carnival. Drug Testing and Analysis, v. 18, p. 192–197, 2026. DOI: https://doi.org/10.1002/dta.70002. [AQUI]
Luiz Cláudio de Almeida Barbosa, PhD
Prof. Titular de Química da UFMG
19 de fevereiro de 2026



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